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Sex, 15 de Abril de 2011 12:47

Cícero Bley apresenta biogás como fonte energética estratégica em Assunção

Escrito por  Administrator
Cícero Bley apresenta aos representantes dos demais países a experiência brasileira do Biogás, desenvolvida pela Itaipu no Oeste do Paraná. Cícero Bley apresenta aos representantes dos demais países a experiência brasileira do Biogás, desenvolvida pela Itaipu no Oeste do Paraná.

O Assessor de Energias Renováveis da Itaipu, Cícero Bley, destacou as vantagens do uso do biogás na América Latina durante o II Encontro Técnico de Energias Renováveis para a América Latina e o Caribe, realizado no final de março em Assunção (Paraguai). No evento foram apresentadas as experiências nacionais, os processos, as tecnologias, as políticas e meios de financiamento para energias renováveis nos distintos países da Região. Cícero destacou o grande potencial energético do biogás para a América Latina, um produto que é subutilizado apesar da região ser uma grande produtora de alimentos. Segundo ele, só o aproveitamento dos dejetos da produção agropecuária brasileira,  em conjunto com o esgoto urbano e o lixo orgânico, permitiria a geração de 470 milhões de Kw-hora por ano, ou o equivalente a cerca de metade da produção de energia da Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo.

Cícero enfatiza que o biogás é a fonte de energia renovável mais disponível na América Latina, e uma das mais baratas. Os resíduos da agropecuária, dos esgotos e o lixo orgânico, podem ser utilizados para a geração de energia elétrica, através da decomposição da matéria orgânica, em um processo conhecido como biodigestão. Ele salienta que o biogás é obtido sem comprometer os territórios destinados à produção de alimentos, pois é um produto gerado a partir de resíduos e efluentes orgânicos, como os dejetos de bovinos, suínos e aves entabulados na produção agropecuária.

Aproveitados economicamente, estes resíduos deixam de emitir milhões de toneladas de gás metano para a atmosfera e de poluir cursos de água e o próprio solo, permitindo a conservação do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida da população que passa a desfrutar de um entorno mais saudável. Além das vantagens ambientais, a geração do biogás permite aos produtores rurais um aumento de sua renda através da venda de energia elétrica às concessionárias de suas regiões.

O assessor de Energias Renováveis da Itaipu destaca que o biogás é um produto, como o etanol. Mas seu uso pode se estender com mais facilidade pela América Latina devido à grande abundância da matéria prima e ao baixo custo da tecnologia aplicada nos processos de biodigestão. O biogás pode, por exemplo, ser gerado por pequenos produtores rurais, reunidos em condomínios de agroenergia, como demonstram as experiências já realizadas pela Itaipu no Oeste do Paraná. A venda de energia elétrica às concessionárias locais e a comercialização de créditos de carbono permitem ao pequeno produtor rural obter uma renda extra no campo e dinamizar a agricultura familiar.

Nesta entrevista o assessor de Energias Renováveis da Itaipu, Cícero Bley, evidencia as potencialidades do uso do biogás no Brasil e na América Latina.

Confira também a apresentação de Cícero Bley sobre o produto Biogás (http://www.hidroinformatica.org/arquivos/biogas-o-produto.pdf)

A entrevista completa com o Assessor de Energias Renováveis da Itaipu Binacional você pode visualizar abaixo.

 

No contexto do evento, qual é a importância do biogás para a América Latina, considerando que os demais países destacaram neste evento outras energias, como a solar, sem dar muita ênfase ao biogás?

Cícero Bley: O biogás é a fonte de energia renovável mais disponível que existe em todos os países da América Latina, porque em todos os países existe população concentrada em cidades produzindo lixos orgânicos, esgotos urbanos, e também pela característica da América Latina de ser uma produtora de alimentos, principalmente de proteína. Nós plantamos milho e soja e colhemos carne e leite, e essa é a tônica de todos os países. O Uruguai faz isso, a Argentina, o Paraguai - a Bolívia e o Peru menos, mas também fazem. Todos os países estão mais ou menos neste mesmo sistema, até o México. Então, a possibilidade do biogás é maior do que a própria energia solar, por exemplo, que depende de alta tecnologia externa, importada, enquanto que o biogás tem condições de colocar tecnologia nacional em todos esses lugares, e com isso, mobilizar essa fonte energética. Se o biogás pegar o embalo que a gente está imaginando, ele vai se equiparar, em importância, ao etanol para o Brasil. Só que não existe etanol nos outros países, não dá para plantar cana na Argentina em condições de se fazer etanol, é muito mais fácil fazer biogás que etanol, muito mais disseminado, muito mais popular fazer o biogás que o etanol. Para fazer etanol você tem que ter grandes refinarias, grandes processos químicos, essa coisa toda, enquanto que com o biogás um simples biodigestor serve, e essa é a grande diferença do biogás. Se procurou colocar isso no encontro aqui em Assunção, esse encontro de Energias Renováveis, e dar ênfase ao biogás, porque normalmente as pessoas não dão ênfase, elas acham que o biogás é uma coisa atrasada, uma coisa marginal, uma coisa que não tem valor, e no fundo tem um valor enorme.

Existe algum dimensionamento de quanta energia se poderia produzir em América Latina através do biogás?

Bley: Na América Latina não, mas no Brasil temos. São 470 milhões de KW hora/ano. Só para comparar, no Brasil se pode gerar 12% da energia de Itaipu com o biogás só com os animais abatidos de aves e suínos, não contando o potencial do leite, pois o leite é pasto, não contando os confinamentos, não contando o saneamento básico urbano nem o lixo orgânico. Somente os animais abatidos pela agroindústria nacional produziriam 12% da energia da Itaipu, com esse conjunto todo poderíamos chegar a quase 50% da Itaipu, o que não é pouco, porque a Itaipu é a maior geradora de energia do mundo. Esse 50% significa mobilizar biogás que está sendo um problema ambiental para fazer essa energia e obter outras vantagens, como concorrer aos mecanismos de desenvolvimento limpo, essas novas frentes de financiamento que estão vindo na agricultura de baixo carbono, e várias outras possibilidades para os produtores.

No caso do Brasil, o biogás seria aplicável em animais confinados. Na pecuária extensiva como isto se resolveria?

Bley: Na pecuária extensiva o problema está resolvido, porque em realidade o gado dilui a concentração de dejetos no pasto. Agora a tendência está sendo cada vez mais confinar animais, tem confinamento de 40 mil bois, 60 mil bois, e essa tendência de confinar animais em um espaço muito pequeno sempre vai gerar uma grande quantidade de resíduos. E aí está a aplicação do biogás, não é para área extensiva, mas para animais entabulados, no caso de animais. No caso de pessoas, são as estações de tratamento de esgoto, que produziriam o biogás, que está sendo jogado fora.

Atualmente, no Brasil, as experiências de tratamento de esgoto humano exitem apenas no Estado do Paraná ou também em outros estados?

Bley: A Sabesp em São Paulo está fazendo várias experiências. A SABESP inclusive foi mais agressiva em pesquisas que a própria SANEPAR.

Só há estas duas experiências?

Bley: Sim, pouquíssimo. Agora, os técnicos sabem muito. A SANEPAR tem muito conhecimento acumulado no biogás. Mas nunca foi permitido à SANEPAR que mobilizasse essa energia. Houve técnicos, inclusive, que adoeceram, de tanta frustração durante sua carreira, vendo que tudo o que geravam de evidência óbvia em cima do biogás não era aproveitado, há muitos exemplos de pessoas sofrendo muito por causa desta frustração. A gente chegou num momento agora que é tempo de colocar isto, o governo já começa a ver essas possibilidades, a área internacional começa a ver, a OLADE em Quito, que é a organização latino-americana de desenvolvimento energético, há dois ou três anos nem se referia, não havia uma palavra sobre energias renováveis no site da OLADE, e hoje em dia está aí, vendo um novo horizonte se descortinando em cima das energias renováveis.

Como você vê o resultado deste encontro de tantos países da América Latina em torno ao tema das energias renováveis?

Bley: Eu acho que em termos comparativos, nós participamos do primeiro evento que foi na Colômbia, agora o segundo evento aqui no Paraguai. É significativo o amadurecimento da questão das energias renováveis, a consciência que os países trouxeram, são 12 países que estão com os seus Observatórios armados, mais fortes menos fortes não importa, mas trabalhando com informação, com dados, tentando divulgar, tentando fazer políticas. Esse grupo de pessoas que se ligou a ONUDI nesta empreitada de estruturar o Observatório da América Latina e o Caribe amadureceu muito, e o encontro refletiu isto: foram palestras de altíssimo nível, altamente motivadoras, profundamente científicas, técnicas, gente que não está brincando de fazer energias renováveis, está seriamente empenhada em criar condições para que isto aconteça.

Quê propostas você destacaria como as mais importantes deste encontro para levar adiante, quais são as propostas para o futuro?

Bley: Nós tivemos vários tipos de propostas, nós tivemos propostas estruturantes e propostas executivas, vamos dizer assim. Das propostas estruturantes, a mais significativa delas foi o entendimento da ONUDI e dos gerentes de Observatórios que a OLADE é o lugar que nós temos que nos agrupar. Isto é fundamental porque não cria uma nova instituição enfraquecendo a primeira, não cria um organismo que os governos não vão reconhecer porque já tomaram uma atitude para o desenvolvimento energético acontecer na América Latina através da OLADE, definindo a missão. Os governos colocam recursos lá, a sede da OLADE em Quito é maravilhosa, tem lugar suficiente para fazer encontros da forma que se quiser, a OLADE está estruturada para fazer ensino a distância também, para fazer conferências à distância, então essa grande possibilidade da OLADE entrar fortemente na coordenação dos Observatórios na América Latina, acho que é algo que saiu bem desse seminário aqui. E outras coisas, em termos estruturantes, a necessidade de se estabelecer o geoprocessamento e fazer isto de forma acessível com software livre de código aberto, para que todo mundo possa participar, fazer, registrar, somar, crescer em informações. Há outra questão que passou muito claramente foi a de que a geração distribuída é a chave para que tudo aconteça.

Foi comentada também a questão de criar um fundo latino-americano, inclusive como proposta sua. Qual seria a importância desse fundo?

Bley: Os países da América do Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil, já tem um fundo desse que se chama FONPLATA, que é um fundo onde os governos colocam recursos para o desenvolvimento regional quando há alguma coisa importante acontecendo. Por exemplo, o linhão que está vindo da Itaipu para Assunção, o linhão novo, que vai irrigar de energia a região, inclusive evitando apagões, foi financiado pelo Fonplata. Então existe o Fonplata, existem outros fundos da Mesoamérica, etc. É importante ter uma avaliação desses fundos, a OLADE pode fazer essa identificação dos fundos, e estimular os governos a colocar nos respectivos fundos recursos para desenvolver determinadas tecnologias que interessam aos governos, isso é claro, discutido a nível diplomático. Na verdade não se precisam criar novos fundos, pode se colocar dentro dos fundos que já existem um recurso para as energias renováveis. Então a gente tem o GEF (Global Environment Facility), e o que ponderamos foi que o GEF - que tem uma estrutura de projeto muito complexa e que leva muito tempo para destinar os recursos, abrisse formatos de projetos específicos para energias renováveis, o que facilitaria o acesso ao GEF.

Na América Latina há possibilidades de desenvolver tecnologias próprias a partir de um fundo como este? Muita coisa ainda é importada, e neste sentido, o quê se poderia produzir tecnologicamente na própria América Latina em energias renováveis?

Bley: Tem as coisas dos materiais, a própria célula fotovoltaica, que é feita com base num material chamado silício, que é o estado quase puro da areia, um quartzo, quase um brilhante, se pode dizer assim. É uma rocha muito pura que ocorre em determinados lugares do mundo. E o lugar onde mais ocorre é no Brasil, em Minas Gerais. O silício é minerado, retirado do chão, do subsolo, em Minas.   Coloca-se esse silício lá em Minas Gerais num trem, ele vai para o porto, do porto embarca num navio e vai para a China, para a Rússia, onde é processado, vira pó de silício e depois vai para a indústria sofrer mais um refino industrial para chegar a alta pureza. E é aí que ele vai ser colocado nas placas fotovoltaicas. Aí essa placa fotovoltaica embarca de volta e vem para o Brasil fazer energia renovável. Na China, por exemplo, 100% da energia utilizada para fazer esse processo de beneficiamento do silício é energia suja, energia poluente, energia do carvão. Então você vê, tem uma logística toda de movimentação, uma queima de diesel, que é combustível fóssil, e todo o modal de transporte é absolutamente poluente, chega lá desta forma poluente, e vem aqui resolver um problema ambiental? Então não existe isto, isto é uma logística que tem que ser quebrada. Nós estamos estudando na Itaipu a possibilidade de encontrar parceiros na Europa que queiram instalar no Paraguai, com o excedente da energia paraguaia uma fábrica para purificar o silício de Minas Gerais. Então pega o silício de Minas Gerais, traz aqui por barco, pelo rio Paraná, chega a esse lugar determinado que ainda não foi discutido, coloca esta fábrica, onde este silício vai ser descarregado, transformado e aí sim, vai ser utilizado para fazer placas fotovoltaicas aqui, com energia hidráulica, ou seja, energia limpa, e com uma logística completamente otimizada. E isso significa dizer que por mais que a China faça barbaridades para reduzir custos, opere sem leis trabalhistas, opere sem leis ambientais, essa logística ela não consegue destruir. E aí é possível que o Brasil quebre a hegemonia mundial do silício e viabilize efetivamente a energia solar fotovoltaica, que hoje é uma coisa caríssima.

E aí se poderia abrir um espaço de cooperação com os outros países da região que poderiam ter acesso a este produto brasileiro...

Bley: Com certeza. Claro que esta é uma disputa mercadológica, os chineses jamais vão desistir da empreitada deles, estão com as fábricas montadas, mas que nós vamos mexer nessa história nós vamos. Então esta é tipicamente uma possibilidade de mexer com coisas próprias.

Última modificação feita em Dom, 04 de Dezembro de 2011 22:10

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